Uma proposta de Donald Trump para impor limite de 10% nos juros dos cartões sacudiu o setor financeiro norte-americano. Hoje, o custo médio do rotativo no país gira em torno de 21% ao ano, segundo o Federal Reserve, e a ideia de cortar essa taxa pela metade mexe diretamente no modelo de negócios dos bancos.
Embora pareça um tema doméstico, a medida interessa a muitos brasileiros que mantêm cartões emitidos nos EUA ou dependem de programas de recompensas atrelados ao mercado americano. Quem acompanha as análises do Cartão e Milhas já percebeu: mudanças em Washington costumam atravessar fronteiras e chegar rápido às carteiras premium do Brasil.
Limite de 10% nos juros dos cartões: o que está na mesa
Trump defendeu publicamente que emissores como JPMorgan, Citigroup e Capital One respeitem um limite de 10% nos juros dos cartões. A justificativa é aliviar consumidores endividados e enfrentar o alto spread cobrado em dívidas sem garantia. Caso avance, a proposta exigirá aval do Congresso e poderá vigorar por período determinado.
Para os bancos, porém, o cartão de crédito é uma das linhas mais lucrativas: as carteiras somam mais de US$ 200 bilhões em empréstimos, com retorno líquido próximo de 10% ao ano. Representantes do setor alertam que, se o teto se confirmar, a oferta de crédito poderá encolher, principalmente para clientes considerados de maior risco, e novas anuidades ou tarifas fixas podem aparecer para compensar o corte.
O impacto não se restringe ao território norte-americano. Brasileiros de alta renda que usam cartões dos EUA para acumular pontos, acessar salas VIP ou aproveitar seguros de viagem podem enfrentar aprovação mais rígida, menos bônus de boas-vindas e cashback mais enxuto. Em resumo, o limite de 10% nos juros dos cartões ameaça o ecossistema que financia os benefícios premium.
O efeito dominó nos programas de recompensas
Historicamente, recompensas generosas são sustentadas por duas fontes: juros elevados cobrados de quem carrega saldo e as taxas de intercâmbio pagas pelos lojistas. Se uma das pernas encurtar, a conta deixa de fechar e o banco precisa recalibrar ofertas.
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Como o corte pode impactar programas de recompensas
Analistas da Bloomberg apontam que emissores focados em perfis de menor renda, como Synchrony Financial e Bread Financial, dependem mais da diferença entre o custo de captação e o que cobram no rotativo. Ao perder parte dessa receita, a saída provável seria reduzir pontuações, encurtar prazos de juros zero em compras e elevar anuidades.
Cartões super premium, voltados a viajantes frequentes, tendem a sobreviver, mas possivelmente com barreiras maiores de entrada: exigência de score elevado, renda mínima mais alta e convites restritos. Para quem já possui plástico americano, vale acompanhar as comunicações dos bancos e considerar estratégias alternativas de acúmulo de milhas.
Um segundo reflexo é global. Bancos multinacionais costumam replicar modelos de risco e precificação em vários mercados. Se a contenção de receita ocorrer nos EUA, instituições podem enxugar benefícios também em filiais de outros países, inclusive no Brasil. Por isso, acompanhar o debate sobre o limite de 10% nos juros dos cartões ajuda a antecipar possíveis mudanças em programas locais.
Por ora, não há calendário oficial para votação. O lobby do setor financeiro é forte e já derrubou propostas semelhantes em 2019. Ainda assim, o simples avanço da discussão aumenta a incerteza. Fique de olho, especialmente se você utiliza cartões internacionais para otimizar suas viagens: ajustes repentinos em limites, anuidades e pontuação podem virar realidade antes do próximo embarque.

