O cenário de capital abundante e juros baixos ficou para trás. Agora, o custo do dinheiro elevado faz investidores recalcularem o apetite por risco e muda o jogo para quem empreende no país.
Startups que antes captavam recursos com facilidade veem as rodadas encolherem, enquanto novas oportunidades surgem para quem tem fôlego de longo prazo. Quer entender por que isso acontece? Siga a leitura e descubra onde estão as janelas de chance neste novo ciclo.
Juros altos mudam a matemática das startups
Entre 2020 e 2021, a Selic próxima de zero impulsionou valuations astronômicos. Fundos de venture capital aceitavam múltiplos agressivos porque projetavam lucros distantes, mas potencialmente enormes. Hoje, com a Selic em patamar de dois dígitos, esse cálculo perdeu charme: a taxa de desconto aplicada aos fluxos de caixa futuros subiu e o valor presente despencou.
Na prática, cada ponto percentual extra de juros diminui o preço considerado justo para um negócio ainda no vermelho. Investidores agora comparam a incerteza de uma startup a aplicações conservadoras que pagam 1% ao mês. Resultado? As rodadas demoram mais, os cheques encolhem e a diligência ficou mais rígida.
Essa virada esfriou o mercado de saídas. IPOs desapareceram da B3, fusões ficaram raras e muitos fundos se aproximam do fim do ciclo sem a liquidez planejada. Por trás da cortina, cresce a pressão para encontrar compradores que topem assumir participações antes da janela de saída tradicional.
Impactos imediatos no ecossistema
Fundadores passaram a priorizar eficiência em vez de expansão a qualquer custo. Planos agora incluem:
- Controle rigoroso de burn rate;
- Busca por receitas recorrentes;
- Caminho claro rumo à lucratividade.
Além disso, métricas de retenção de clientes e margem bruta ganharam peso nas negociações. Quem entrega números sólidos ainda levanta capital, mas em termos mais conservadores.
Fundos secundários aproveitam o desconto
No mesmo momento em que a escassez de liquidez preocupa gestores tradicionais, um novo tipo de protagonista ganha espaço: o fundo secundário. Ele compra cotas de outros veículos perto do fim de vida que precisam devolver dinheiro aos cotistas, mas não conseguem vender no mercado primário.
Imagem: InnerAI
Esses compradores têm perfil institucional — fundos de pensão, seguradoras e family offices — acostumados a ciclos longos. Para eles, a combinação de valuations deprimidos e ativos de qualidade cria terreno fértil. Estima-se que cerca de 60% do capital fresco hoje flua para esse segmento, sinal de mudança estrutural na alocação de recursos.
A lógica é simples: adquirir participações com desconto agora e capturar ganhos quando a curva de juros cair e o apetite por IPOs voltar. Em outras palavras, quem consegue esperar pode colher retornos superiores aos oferecidos pelo Tesouro Direto.
O que muda para fundadores e investidores
Startups passam a ter nova alternativa de liquidez parcial, vendendo parte das ações a fundos secundários sem precisar abrir capital. Já os primeiros investidores encontram saída honrosa, ainda que com múltiplos mais baixos do que os sonhados em 2021.
Para o leitor da Cartão e Milhas interessado em finanças e milhas, a lição é clara: entender como a alta dos juros altera o valor do dinheiro ajuda a escolher onde alocar recursos. Quer se trate de investir em startups, comprar títulos públicos ou otimizar pontos no cartão de crédito, tudo passa pela mesma variável macroeconômica: o custo do capital.
Portanto, fique atento. Quando a Selic recuar, o mercado pode reacelerar. Até lá, o jogo favorece quem valoriza eficiência, mira liquidez alternativa e sabe ler o momento certo de entrar — ou sair — de cada aposta.

